Ufa! Ando para lá de ocupada. Há duas semanas não escrevo nada, e isso é preocupante. Preciso me organizar para manter o ritmo. É que, de vez em quando, a coisa aperta. Até um dente fraturado eu arranjei. Não me perguntem como. Nem imagino. Minha dentista me perguntou que artes eu andei fazendo. Eu disse: "Tantas... " Vá-se saber qual delas resultou neste terrível diagnóstico. Para não deixar passar muito tempo, aí vai um texto que escrevi há uns dois meses a partir de um grito de GOL coletivo, ouvido através da janela em uma quarta-feira dessas de Campeonato Brasileiro.
GOL
Sylvia Regina Marin
Foi no ano passado, durante a final do Campeonato Carioca de Futebol, que tudo aconteceu. Não me perguntem quais eram os times finalistas. Não faço a menor idéia. Minha intimidade com o futebol é a mesma de um estrangeiro que, ao se deparar com um turista brasileiro em suas terras, grita: Pelé! Ronaldo! Kaká!
Sou Fluminense por hereditariedade. Para desconsolo de mamãe, flamenguista de coração, meu pai me convenceu a ser Fluminense, quando eu era bem pequena. Confesso, porém, que, como torcedora, sou um fiasco. Não acompanho os jogos do meu time. Daí, nunca sei se ele ganhou ou perdeu, ou se está em condições de chegar à final de um campeonato. Simplesmente não sofro com isto.
Só não me desligo do esporte porque meu marido é torcedor fanático do Flamengo. Aliás, esse fanatismo que a maioria dos homens tem por futebol é uma coisa que me intriga. Não é normal a agonia que toma conta de Olavo e seus amigos enquanto assistem a uma partida. E a gritaria no momento de um gol? Faz estremecer o prédio inteiro. Virgem Maria!
Pois foi por causa, justamente, de um gol que me tornei personagem de uma história inusitada. Pode-se imaginar uma coisa dessas? Pois é: Semíramis, minha gata persa de estimação, tinha cruzado com o gato de um amigo meu, e estava prestes a ter sua cria, quando a partida final do Campeonato começou. A turma estava toda reunida lá em casa em volta da televisão. Meu papel na cena era cumprido com eficiência: não deixava um copo de cerveja vazio. É óbvio que as pessoas não me davam a menor “bola”, nem podiam imaginar como o estado de Semíramis me inquietava naquele momento.
Não seria minha primeira experiência como parteira. A diferença é que, da outra vez que Semíramis teve cria, houve toda uma preparação do ambiente, desde a música de fundo – um noturno de Chopin, com Nelson Freire ao piano – ao espaço em si – silencioso e acolhedor.
Este segundo parto prometia... A algazarra na sala era enorme, o ambiente estava tenso, e Semíramis não conseguia parar quieta. Tive a brilhante idéia de fazer-lhe uma massagem ayurvédica, com óleos aromáticos – coisas que a gente inventa em momentos aflitivos. Se o método dava certo com seres humanos, porque não daria com animais? Bem, não deu. A gata ficou toda melada, escorregadia. A cada tentativa de caminhar, ela deslizava alguns centímetros. E eu... atrás.
Quando o primeiro gol foi feito, os gritos que ecoaram em minha sala e pela vizinhança assustaram de tal maneira a pobre fêmea, que ela deu à luz na mesma hora. Era um macho, somente um, nascido no olho do furacão, atordoado, com os olhos assustados de quem quer saber “que lugar horrível é esse onde vim parar”. Pobrezinho... Tremia de puro terror. Semíramis o lambeu todo, e o aconchegou – infalível instinto maternal!
Todos correram para ver o recém-nascido, que se escondia no corpo felpudo e macio da mãe. A cena era realmente linda. Futebol, passes, dribles e xingamentos foram esquecidos por alguns minutos. Aos poucos, o pessoal retomou seu lugar em frente à televisão e só mesmo as crianças ainda ficaram mais um tempo entretidas com a novidade. Queriam arranjar um nome para o novo membro da família. Os palpites variavam desde Batman, Hot Wheels e Bob Esponja a Veludo, Mozart e Aristóteles. Difícil decidir!
O fato é que o jogo acabou, o dia virou noite e o gato continuava sem nome. Por incrível que pareça, nenhum combinava com o focinho assustado daquele “jovem”. Durante a semana, várias outras tentativas foram feitas, mas as crianças já estavam ficando desanimadas. O bichinho vivia escondido, agarrado em Semíramis. Se ela saía de perto dele, seu miado era um lamento doloroso.
No domingo seguinte, durante uma nova partida de futebol, é que uma idéia interessante tomou forma na mente de Olavo. Como não era jogo do Flamengo, ele estava mais relaxado. Ficou com um olho na televisão e outro nos bichanos. Pois aconteceu o que ele previa. Quando fizeram o primeiro gol, o gatinho deu um pulo e correu na direção do aparelho. Todos riram. Estava resolvido o assunto. Dali em diante, bastava gritar “Gol” que o animal aparecia, pronto para atender a seus donos.
Hoje em dia, Gol é a mascote da casa. Já não vive mais com medo. Percebeu que seu nome traz felicidade. Seja qual for o time, há sempre alguém comemorando o momento do gol; há sempre alguém chamando por ele...
quinta-feira, 26 de junho de 2008
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Um dos meus grupos de literatura é formado de pessoas incrivelmente versáteis e criativas. Nossos encontros são pura diversão. Ao final deles, sempre escolhemos vários temas para serem desenvolvidos até o encontro seguinte. Não há necessidade de se escrever sobre todos eles. As pessoas geralmente escolhem somente um e pronto. Na última reunião os temas sugeridos foram: "Viagens" (por causa da viagem à Itália que a Myriam faria este mês), "Ficção Científica" (por causa da peça que a Hada Luz, atriz, está ensaiando - sobre ficção científica) e"Banheiro" (a partir de um comentário que fizemos sobre o filme "O Banheiro do Papa"). Além destes três temas, a Anna sugeriu também que desenvolvêssemos um texto sobre a lei de Darwin que diz: "Quem sobrevive não é o mais forte, nem o mais inteligente, é o mais adaptável."
Catarina, "porralouquíssima" coleguinha nossa, alagoana arretada, resolveu misturar tudo isso e fez um texto surreal, hilário, postado em seu blog www.gavetaverde.blogspot.com. Pegando carona na idéia, resolvi também fazer uma mistura de todos os temas. Foi isso aí que saiu:
A INCRÍVEL VIAGEM DE MÍRIAM
(Ficção científica)
Sylvia Regina Marin
Miriam não sabe. Não tem a menor noção. No entanto, todos à sua volta sabem – seus alunos, seus parentes, seus amigos, os colegas da oficina literária... O porteiro do prédio onde ela mora também sabe (mas isto não chega a ser uma novidade; os porteiros sempre sabem de tudo). Até o jornaleiro da esquina, o dono do bar, os freqüentadores do restaurante em frente e o sapateiro sabem.
O que ninguém tem é coragem de contar para ela. O tempo está se esgotando. É preciso armar uma estratégia com urgência. Pois foi Catarina, logo a mais perturbada das amigas de Miriam, quem teve a brilhante idéia.
- Vamos fazer plantão na porta do banheiro social do apartamento de nossa amiga!
Que “sacada” genial! Como não tinham pensado nisso antes? Difícil vai ser explicar à Miriam a estranha movimentação em sua casa, mas não há saída. Pior seria perdê-la, destinada que está a retornar a seu planeta de origem, na distante galáxia de Markarian.
Pois é... Se os que me lêem por acaso não sabem, Miriam foi trazida à Terra, em um invólucro humano, para aprender como vivem os terráqueos e tentar se adaptar ao nosso modus vivendi. Entre os voluntários que se apresentaram para a terrível experiência, ela foi escolhida por ser a mais forte e mais inteligente. Antes da longa viagem, porém, seus superiores tiveram o cuidado de apagar as lembranças de Miriam e de acrescentar, em sua fórmula, pitadas de sentimentos – amor, compaixão, tolerância, solidariedade – coisas importantes para o convívio com outros seres humanos.
Estipularam um prazo, findo o qual Miriam fará a viagem de volta. O completo êxito da empreitada a tornará a criatura mais poderosa de Markarian. No entanto, se, ao contrário do esperado, ela fracassar, sua arqui-inimiga Lea tomará o poder.
Os amigos sofrem ao pensar no destino da amada Miriam. Combinam entre si que, enquanto viverem, não permitirão que ela entre naquele banheiro. Sua derrota é evidente. Bem que ela tentou, mas como se adaptar a um mundo tão cruel onde existem tantas guerras, tanto ódio, intolerância e desamor? Talvez os markarianos tenham exagerado na dosagem de bons sentimentos, mas agora é tarde. As horas voam.
O tic-tac do relógio de parede, dentro do banheiro, deixa os nervos de quem está de plantão em frangalhos. É ali que está localizado o aparelho que emana os sinais de comando da nave-mãe. O vaso sanitário é uma caldeira em ebulição. Pode explodir ao menor contato com a pele e sugar a pessoa, através dos esgotos, até o ponto escolhido com antecedência para o resgate. A balança não está ali por acaso. Ao pisar nela, toda uma varredura pode ser feita no corpo de forma a limpar qualquer resquício de bondade. Até mesmo o inocente quadro escrito em italiano tem como objetivo disparar raios imobilizadores, se necessário.
É por isto que todos estão atentos. Miriam não entende porque há sempre alguém com dor de barriga, quando ela tenta entrar no banheiro. E, por mais que adore os amigos, que “diabos” aconteceu que essa turma não sai mais de sua casa?
Miriam não sabe; e, se depender de nós, ela nunca saberá.
Junho de 2008
Catarina, "porralouquíssima" coleguinha nossa, alagoana arretada, resolveu misturar tudo isso e fez um texto surreal, hilário, postado em seu blog www.gavetaverde.blogspot.com. Pegando carona na idéia, resolvi também fazer uma mistura de todos os temas. Foi isso aí que saiu:
A INCRÍVEL VIAGEM DE MÍRIAM
(Ficção científica)
Sylvia Regina Marin
Miriam não sabe. Não tem a menor noção. No entanto, todos à sua volta sabem – seus alunos, seus parentes, seus amigos, os colegas da oficina literária... O porteiro do prédio onde ela mora também sabe (mas isto não chega a ser uma novidade; os porteiros sempre sabem de tudo). Até o jornaleiro da esquina, o dono do bar, os freqüentadores do restaurante em frente e o sapateiro sabem.
O que ninguém tem é coragem de contar para ela. O tempo está se esgotando. É preciso armar uma estratégia com urgência. Pois foi Catarina, logo a mais perturbada das amigas de Miriam, quem teve a brilhante idéia.
- Vamos fazer plantão na porta do banheiro social do apartamento de nossa amiga!
Que “sacada” genial! Como não tinham pensado nisso antes? Difícil vai ser explicar à Miriam a estranha movimentação em sua casa, mas não há saída. Pior seria perdê-la, destinada que está a retornar a seu planeta de origem, na distante galáxia de Markarian.
Pois é... Se os que me lêem por acaso não sabem, Miriam foi trazida à Terra, em um invólucro humano, para aprender como vivem os terráqueos e tentar se adaptar ao nosso modus vivendi. Entre os voluntários que se apresentaram para a terrível experiência, ela foi escolhida por ser a mais forte e mais inteligente. Antes da longa viagem, porém, seus superiores tiveram o cuidado de apagar as lembranças de Miriam e de acrescentar, em sua fórmula, pitadas de sentimentos – amor, compaixão, tolerância, solidariedade – coisas importantes para o convívio com outros seres humanos.
Estipularam um prazo, findo o qual Miriam fará a viagem de volta. O completo êxito da empreitada a tornará a criatura mais poderosa de Markarian. No entanto, se, ao contrário do esperado, ela fracassar, sua arqui-inimiga Lea tomará o poder.
Os amigos sofrem ao pensar no destino da amada Miriam. Combinam entre si que, enquanto viverem, não permitirão que ela entre naquele banheiro. Sua derrota é evidente. Bem que ela tentou, mas como se adaptar a um mundo tão cruel onde existem tantas guerras, tanto ódio, intolerância e desamor? Talvez os markarianos tenham exagerado na dosagem de bons sentimentos, mas agora é tarde. As horas voam.
O tic-tac do relógio de parede, dentro do banheiro, deixa os nervos de quem está de plantão em frangalhos. É ali que está localizado o aparelho que emana os sinais de comando da nave-mãe. O vaso sanitário é uma caldeira em ebulição. Pode explodir ao menor contato com a pele e sugar a pessoa, através dos esgotos, até o ponto escolhido com antecedência para o resgate. A balança não está ali por acaso. Ao pisar nela, toda uma varredura pode ser feita no corpo de forma a limpar qualquer resquício de bondade. Até mesmo o inocente quadro escrito em italiano tem como objetivo disparar raios imobilizadores, se necessário.
É por isto que todos estão atentos. Miriam não entende porque há sempre alguém com dor de barriga, quando ela tenta entrar no banheiro. E, por mais que adore os amigos, que “diabos” aconteceu que essa turma não sai mais de sua casa?
Miriam não sabe; e, se depender de nós, ela nunca saberá.
Junho de 2008
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Meus queridos leitores,
Ando um pouco afastada de minhas "literatices" porque resolvi iniciar um trabalho novo, no mercado de distribuição interativa. Como as horas livres já são poucas, agora ficou um pouquinho pior. Mas venham me visitar, de vez em quando. Quando vocês menos esperarem, aparecerei. Meu primo Carlos Affonso, lá de Manaus, ficou até preocupado com este sumiço temporário. Que fofo! Neste meio tempo, além das atividades novas, ainda tive que acudir o maridão (problemas de saúde - está melhor) e a netinha, que levou três pontos no queixo. Criança levada é assim mesmo.
Aí vai meu texto mais recente:
IMPROVÁVEL DESTINO
Sylvia Regina Marin
Sueli está excitadíssima. É hoje a reunião dos antigos colegas da faculdade. Conseguiu localizar quase todos. Bendita Internet! Sabe que está bem conservada para seus cinqüenta anos, mas o que será que eles vão achar? Engordou uns quilinhos, é verdade. Mas quem continua com o mesmo peso dos vinte anos? Ninguém, lógico! Quer dizer, talvez a magrela da Edite, que tinha pai, mãe, avô, avó, todos esquálidos na família – genética, argh! Rugas? Só mesmo quem fez plástica ou aplicou botox pode ostentar um rosto completamente esticado nessa idade. Aliás, isto é golpe baixo contra as pessoas que, como ela, não têm meios de acessar um Pitanguy.
Ouviu dizer que Marcelo desistiu da advocacia para se dedicar ao cultivo de produtos orgânicos. É bem a cara dele! Pedro está famoso. Seu nome aparece sempre nos jornais: Procurador da República! Mora em Brasília, mas prometeu vir. Será que ainda é aquele “tesão” da juventude?
Soube que Irani morreu ao dar a luz à sua segunda filha. Que triste! Glória mora em um casarão na Barra da Tijuca. Entrou para a política e se deu bem.
Sueli não teve mais notícias do resto da turma nesses últimos vinte e cinco anos. Imagina quantas histórias serão contadas, quantas experiências cada um terá vivido... Vai registrar tudo, tirar muitas fotografias e postar em seu blog. Tem de aproveitar a ocasião para divulgar o blog em que ela descreve, sob a forma de crônica, as observações do seu tumultuado dia-a-dia.
O pretinho básico já foi passado a ferro e está em cima da cama. Seus filhos dizem que ela fica muito sexy com esse vestido. Unhas feitas, sapato e bolsa separados, só faltam a maquiagem e os acessórios. Com o cabelo não precisa se preocupar. Fez um corte moderno há uma semana. Basta passar um gel e pronto. Uma gata!
Está na hora. Despede-se da família e sai, feliz, rumo ao restaurante em Ipanema. Dirige o carro sem pressa. Não há motivo para correr. Afinal, tomou todas as precauções para não se atrasar. Mas o coração parece que desanda – sabe bateria de escola de samba? Que coisa esquisita: porque será que o excitamento se transformou em nervosismo? Respira fundo e tenta afastar o mau pressentimento que a assalta.
Chega finalmente ao local do encontro. Metade da turma já está lá, rindo, se abraçando, falando todos ao mesmo tempo. Uns são reconhecidos de imediato, outros precisam dizer quem são. Também, pudera - a Renata, por exemplo, que tinha cabelos compridos, encaracolados e castanhos, está agora de cabelo curto, liso e louro – e, ainda por cima, com lentes azuis e vinte quilos mais gorda. Assim fica difícil! Cada um que chega é recebido com aplausos e gritos. Todos se levantam, mais abraços, mais beijos e perguntas sem fim. Alegria pura!
Sueli conta baixinho e vê que ainda falta uma pessoa.
- Gente, quem é que está faltando?
- Ora, quem poderia ser – responde Horácio. Quem foi sempre a última em tudo nesta turma? A pior aluna, a mais desbocada, a mais implicante, a que nos fez passar as maiores vergonhas, com aquela mania de levar para casa os saleiros e cinzeiros dos bares que freqüentávamos?
- Mônica! Gritam em uníssono.
Neste exato momento, a porta do restaurante se abre e uma freira entra. Ninguém lhe dá atenção, até que ela se aproxima da mesa e dispara:
- Puta que pariu! Vocês não estão me vendo?
Espanto geral!
- Mônica?
- Tá todo mundo com cara de babaca. Nunca viram uma freira?
- Mônica !!!!!!!!!!!
A cena não leva mais de dois minutos. Entre a alegria e o assombro, dois policiais armados invadem o local e atiram em Mônica. Levam-na toda ensangüentada, mas ainda com vida, e os ex-colegas ficam atônitos, sem entender o que aconteceu.
Sueli volta para casa desconsolada.
No dia seguinte, ao abrir o jornal, vê uma foto de Mônica e a manchete: “A TRAFICANTE MAIS PODEROSA DO PAÍS É PRESA EM LOCAL PÚBLICO DISFARÇADA DE FREIRA”.
Sueli leva um choque. Tornar-se freira teria sido um destino totalmente improvável para Mônica. Mas traficante de drogas?...
Junho de 2008
Ando um pouco afastada de minhas "literatices" porque resolvi iniciar um trabalho novo, no mercado de distribuição interativa. Como as horas livres já são poucas, agora ficou um pouquinho pior. Mas venham me visitar, de vez em quando. Quando vocês menos esperarem, aparecerei. Meu primo Carlos Affonso, lá de Manaus, ficou até preocupado com este sumiço temporário. Que fofo! Neste meio tempo, além das atividades novas, ainda tive que acudir o maridão (problemas de saúde - está melhor) e a netinha, que levou três pontos no queixo. Criança levada é assim mesmo.
Aí vai meu texto mais recente:
IMPROVÁVEL DESTINO
Sylvia Regina Marin
Sueli está excitadíssima. É hoje a reunião dos antigos colegas da faculdade. Conseguiu localizar quase todos. Bendita Internet! Sabe que está bem conservada para seus cinqüenta anos, mas o que será que eles vão achar? Engordou uns quilinhos, é verdade. Mas quem continua com o mesmo peso dos vinte anos? Ninguém, lógico! Quer dizer, talvez a magrela da Edite, que tinha pai, mãe, avô, avó, todos esquálidos na família – genética, argh! Rugas? Só mesmo quem fez plástica ou aplicou botox pode ostentar um rosto completamente esticado nessa idade. Aliás, isto é golpe baixo contra as pessoas que, como ela, não têm meios de acessar um Pitanguy.
Ouviu dizer que Marcelo desistiu da advocacia para se dedicar ao cultivo de produtos orgânicos. É bem a cara dele! Pedro está famoso. Seu nome aparece sempre nos jornais: Procurador da República! Mora em Brasília, mas prometeu vir. Será que ainda é aquele “tesão” da juventude?
Soube que Irani morreu ao dar a luz à sua segunda filha. Que triste! Glória mora em um casarão na Barra da Tijuca. Entrou para a política e se deu bem.
Sueli não teve mais notícias do resto da turma nesses últimos vinte e cinco anos. Imagina quantas histórias serão contadas, quantas experiências cada um terá vivido... Vai registrar tudo, tirar muitas fotografias e postar em seu blog. Tem de aproveitar a ocasião para divulgar o blog em que ela descreve, sob a forma de crônica, as observações do seu tumultuado dia-a-dia.
O pretinho básico já foi passado a ferro e está em cima da cama. Seus filhos dizem que ela fica muito sexy com esse vestido. Unhas feitas, sapato e bolsa separados, só faltam a maquiagem e os acessórios. Com o cabelo não precisa se preocupar. Fez um corte moderno há uma semana. Basta passar um gel e pronto. Uma gata!
Está na hora. Despede-se da família e sai, feliz, rumo ao restaurante em Ipanema. Dirige o carro sem pressa. Não há motivo para correr. Afinal, tomou todas as precauções para não se atrasar. Mas o coração parece que desanda – sabe bateria de escola de samba? Que coisa esquisita: porque será que o excitamento se transformou em nervosismo? Respira fundo e tenta afastar o mau pressentimento que a assalta.
Chega finalmente ao local do encontro. Metade da turma já está lá, rindo, se abraçando, falando todos ao mesmo tempo. Uns são reconhecidos de imediato, outros precisam dizer quem são. Também, pudera - a Renata, por exemplo, que tinha cabelos compridos, encaracolados e castanhos, está agora de cabelo curto, liso e louro – e, ainda por cima, com lentes azuis e vinte quilos mais gorda. Assim fica difícil! Cada um que chega é recebido com aplausos e gritos. Todos se levantam, mais abraços, mais beijos e perguntas sem fim. Alegria pura!
Sueli conta baixinho e vê que ainda falta uma pessoa.
- Gente, quem é que está faltando?
- Ora, quem poderia ser – responde Horácio. Quem foi sempre a última em tudo nesta turma? A pior aluna, a mais desbocada, a mais implicante, a que nos fez passar as maiores vergonhas, com aquela mania de levar para casa os saleiros e cinzeiros dos bares que freqüentávamos?
- Mônica! Gritam em uníssono.
Neste exato momento, a porta do restaurante se abre e uma freira entra. Ninguém lhe dá atenção, até que ela se aproxima da mesa e dispara:
- Puta que pariu! Vocês não estão me vendo?
Espanto geral!
- Mônica?
- Tá todo mundo com cara de babaca. Nunca viram uma freira?
- Mônica !!!!!!!!!!!
A cena não leva mais de dois minutos. Entre a alegria e o assombro, dois policiais armados invadem o local e atiram em Mônica. Levam-na toda ensangüentada, mas ainda com vida, e os ex-colegas ficam atônitos, sem entender o que aconteceu.
Sueli volta para casa desconsolada.
No dia seguinte, ao abrir o jornal, vê uma foto de Mônica e a manchete: “A TRAFICANTE MAIS PODEROSA DO PAÍS É PRESA EM LOCAL PÚBLICO DISFARÇADA DE FREIRA”.
Sueli leva um choque. Tornar-se freira teria sido um destino totalmente improvável para Mônica. Mas traficante de drogas?...
Junho de 2008
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Ando afastada de você, meu blog querido. Trabalhos, atividades, idéias loucas - porém frutíferas - cuidados com o marido debilitado. Minha amiga Regina Cascão veio aqui te visitar. Fiquei sabendo que ela não gosta do nome "Lúcia". Só a mãe a chamava de Regina Lúcia. E descobri que ela também escreve. Faz poesias lindas. Por falar nisso, para quem gosta de dicas literárias, mais um blog imperdível, o www.gavetaverde.blogspot.com. É da Catarina Cunha, cronista "da pesada". Bom feriado!
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Esta imagem aí em cima não é propriamente nova. Foi feita em setembro do ano passado, quando a Ana Beatriz estava aqui no Brasil. Coloquei para mostrar à minha amiga Regina Lúcia, ex-colega do Instituto de Educação que, espero, venha visitar este blog. Regina, a de amarelo sou eu, tá? Meu marido, Marco Antônio, minha filha Ana Beatriz, que mora em Barcelona, e a caçula Maria Cecília. Falta o Paulo Eduardo, o filho mais velho. Outra hora eu te mostro.
Meu texto de hoje:
CIRANDA
Sylvia Regina Marin
Pela janela do apartamento de meus pais, observo as crianças lá embaixo, na pracinha, a brincar e correr. As menores ficam perto das avós ou das babás (sim – as mães modernas não têm tempo para essas coisas). As mais velhas sobem no escorrega, andam na gangorra, vão para o balanço, tudo em velocidade digna de um rali. Quanta energia, santo Deus!
Venho somente uma vez por ano a São Paulo, para rever os parentes, e é nessas ocasiões que dedico umas horinhas para observar o movimento dessa praça. A vida aqui é bem diferente da pequena cidade onde moro, no sul da Itália. Mas as crianças... – coisa fantástica! – têm as mesmas reações, brincam da mesma forma, testam a autoridade dos adultos do mesmo jeito. Um grupo de meninas se junta agora e faz uma roda. Elas devem ter entre cinco e seis anos – que fofas! – e começam a cantar:
Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar...
Fico admirada de ver como Alice cresceu. Rafaela engordou muito. Será que a mãe não percebe que ela pode ficar obesa quando for adulta? Já Luísa está bem magrinha. Talvez tenha estado doente, quem sabe? Aquela lourinha eu não conheço – deve ter-se mudado este ano para o condomínio. Olha como a Nina está bonita... Já não tem mais aquele rostinho de bebê. E Maria Clara, hein? Continua a se vestir como um menino (sua mãe diz que ela adora imitar o pai em tudo). Sinto falta de Bela, a mais engraçada de todas. É geralmente a primeira a quem procuro com os olhos.
- Mãe, a Belinha ainda mora aqui no prédio? Não a vi desde que cheguei.
Mamãe hesita. Seu olhar fica triste e, por um momento, me parece que ela vai desfalecer. Corro, aflita, sem entender o que está acontecendo. Talvez a menina tenha contraído alguma doença grave ou... Não, tento tirar pensamentos mórbidos da cabeça. Mas a agonia dentro do peito continua.
É Jurema, a empregada, quem me dá a notícia que minha mãe não consegue articular.
- Mas a senhora não soube da tragédia? A menina foi jogada pela janela pelo próprio pai e se estatelou lá embaixo. É a encarnação do demônio aquele homem. Tinha sangue em tudo que era lugar. A madrasta...
- Chega, chega, Jurema, pelo amor de Deus! Não quero ouvir mais nada!
Agora sou eu que vejo tudo girar. Sento no sofá e seguro as mãos de mamãe. Choramos as duas por uns instantes. Perco a consciência do meu próprio corpo e me recuso a aceitar o que acabei de ouvir. Tudo que me vem à mente são os profundos olhos castanhos, a pele corada, o riso contagiante, os cabelos ao vento de uma menina de cinco anos cujo nome nem ao menos sei. O apelido “Bela” seria de Anabela, Florisbela? Talvez fosse Isabela... Mas isso já não importa mais.
A ciranda na praça continua. A vida segue em frente. Teremos novos motivos para rir, chorar, beber, dançar, lamentar. Vamos cair e nos erguer de novo.
Será que conseguiremos esquecer que um dia Bela existiu, e que lhe foi tirado, de forma trágica, o bem mais precioso que ela possuía? Não sei. Só o tempo dirá.
Sylvia Regina Marin
Pela janela do apartamento de meus pais, observo as crianças lá embaixo, na pracinha, a brincar e correr. As menores ficam perto das avós ou das babás (sim – as mães modernas não têm tempo para essas coisas). As mais velhas sobem no escorrega, andam na gangorra, vão para o balanço, tudo em velocidade digna de um rali. Quanta energia, santo Deus!
Venho somente uma vez por ano a São Paulo, para rever os parentes, e é nessas ocasiões que dedico umas horinhas para observar o movimento dessa praça. A vida aqui é bem diferente da pequena cidade onde moro, no sul da Itália. Mas as crianças... – coisa fantástica! – têm as mesmas reações, brincam da mesma forma, testam a autoridade dos adultos do mesmo jeito. Um grupo de meninas se junta agora e faz uma roda. Elas devem ter entre cinco e seis anos – que fofas! – e começam a cantar:
Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar...
Fico admirada de ver como Alice cresceu. Rafaela engordou muito. Será que a mãe não percebe que ela pode ficar obesa quando for adulta? Já Luísa está bem magrinha. Talvez tenha estado doente, quem sabe? Aquela lourinha eu não conheço – deve ter-se mudado este ano para o condomínio. Olha como a Nina está bonita... Já não tem mais aquele rostinho de bebê. E Maria Clara, hein? Continua a se vestir como um menino (sua mãe diz que ela adora imitar o pai em tudo). Sinto falta de Bela, a mais engraçada de todas. É geralmente a primeira a quem procuro com os olhos.
- Mãe, a Belinha ainda mora aqui no prédio? Não a vi desde que cheguei.
Mamãe hesita. Seu olhar fica triste e, por um momento, me parece que ela vai desfalecer. Corro, aflita, sem entender o que está acontecendo. Talvez a menina tenha contraído alguma doença grave ou... Não, tento tirar pensamentos mórbidos da cabeça. Mas a agonia dentro do peito continua.
É Jurema, a empregada, quem me dá a notícia que minha mãe não consegue articular.
- Mas a senhora não soube da tragédia? A menina foi jogada pela janela pelo próprio pai e se estatelou lá embaixo. É a encarnação do demônio aquele homem. Tinha sangue em tudo que era lugar. A madrasta...
- Chega, chega, Jurema, pelo amor de Deus! Não quero ouvir mais nada!
Agora sou eu que vejo tudo girar. Sento no sofá e seguro as mãos de mamãe. Choramos as duas por uns instantes. Perco a consciência do meu próprio corpo e me recuso a aceitar o que acabei de ouvir. Tudo que me vem à mente são os profundos olhos castanhos, a pele corada, o riso contagiante, os cabelos ao vento de uma menina de cinco anos cujo nome nem ao menos sei. O apelido “Bela” seria de Anabela, Florisbela? Talvez fosse Isabela... Mas isso já não importa mais.
A ciranda na praça continua. A vida segue em frente. Teremos novos motivos para rir, chorar, beber, dançar, lamentar. Vamos cair e nos erguer de novo.
Será que conseguiremos esquecer que um dia Bela existiu, e que lhe foi tirado, de forma trágica, o bem mais precioso que ela possuía? Não sei. Só o tempo dirá.
sábado, 10 de maio de 2008
Pronto. Já estou outra mulher. Fiz bastante meditação ontem e hoje. Deu certo. Tive uns insights fantásticos. Nada como a gente exercitar a introspecção e a intuição. Ontem à noite desopilei o fígado, vendo o programa do Luís Fernando Guimarães, Dicas de um Sedutor. Nunca fui muito fã do L. F. Guimarães, mas devo confessar que ele está hilário nesse programa. A Ireve Ravache também deu um show, como sempre. Deitei à meia-noite e só acordei hoje às 10 e meia da manhã. Não foi ótimo? Revigorante! Hoje meu filho Paulo Eduardo veio, com a Lili e o Lucas, tomar um lanche comigo. Batemos bastante papo, matamos a saudade e ainda ganhei umas coisinhas lindas que minha nora fez para mim. Ela é muito fofa - super habilidosa.
Meu texto de hoje se chama "Metáforas". Feliz Dia das Mães para todos!
METÁFORAS
Sylvia Regina Marin
- Minha sobrinha é uma pérola! – costumava dizer tia Julieta quando me apresentava a seus amigos.
Desde bem pequena, sempre que ouvia essa frase, meu peito inchava. Não sabia o que ela queria dizer exatamente, mas me seduzia o som proparoxítono e rebuscado da palavra “pérola”. O brilho nos olhos de titia e seu sorriso carinhoso confirmavam minha suspeita de que ela me considerava uma menina especial. As pessoas me olhavam com admiração e, não raro, faziam comentários do tipo:
- Que amor de criança!
- Como ela é delicada!
- Comporta-se tão bem para a idade!
- Você tem razão, Julieta, ela é uma jóia rara!
O tempo foi passando. (Crianças crescem rápido...) Logo aprendi o significado da palavra que era repetida como um mantra toda vez que uma oportunidade propícia aparecia. E não é que me apaixonei por pérolas? Já adolescente, tinha mania de recortar, das revistas de mamãe, as fotografias de mulheres elegantes que ostentavam lindos colares de pérolas. Grace Kelly e Jacqueline Kennedy foram meus modelos de elegância.
Naquela época, eu não sabia a força que as palavras têm. Hoje, no entanto, quando relembro a fase terrível de minha adolescência, o que me vem à cabeça é exatamente a imagem da pérola enclausurada dentro de uma ostra. Pobre tia Julieta! Jamais a acusaria de ter desejado isso. Aconteceu. Mas a correlação é inevitável. Sorrio quando penso na quantidade de lágrimas que uma menina-moça é capaz de derramar e no desperdício de sofrimento que a faz tão infeliz, nesse período da vida. Comigo não foi diferente. Meus hormônios faziam uma revolução interna que a cabeça não sabia entender. E, ao invés me abrir para o mundo, cada vez mais me fechava em uma concha de introspecção e timidez. Foram anos terríveis, mas já estão distantes.
No tempo certo, amadureci, me casei, tive filhos... Tornei-me, vamos dizer assim, uma pérola cultivada. Não se espantem - tia Julieta continuava a me ver da mesma maneira. Seu olhar amoroso nunca se modificou. Nem mesmo quando, em determinada fase de minha existência, em uma atitude de pura rebeldia, resolvi abandonar a família para morar com os índios, no Alto Xingu. Durante um ano experimentei a liberdade de não ter compromissos burocráticos, de conviver com gente simples, de me alimentar de forma natural. Apesar da falta de conforto, os primeiros meses transcorreram suavemente, como se meu espírito estivesse em conexão total com a natureza. Aos poucos, porém, comecei a sentir falta dos livros, dos programas culturais que sempre amei, cinema, teatro... Tentei formar um grupo de atores na taba, mas os índios não me levavam a sério. Aulas de Português então... nem pensar. E o que eu faria, no meio da selva, com os conhecimentos de inglês e francês que adquirira na escola? Desisti.
Quando voltei, recebi críticas de toda a família, com exceção de tia Julieta, que manteve a coerência com que sempre me tratara. Ao abraçá-la, emocionada, ela sussurrou:
- Querida, não me leve a mal – tenho o maior respeito pelo povo indígena – mas o que você tentou fazer foi dar “pérolas aos porcos”...
Ri gostosamente.
- Ah, minha tia... Você e suas metáforas!
Meu texto de hoje se chama "Metáforas". Feliz Dia das Mães para todos!
METÁFORAS
Sylvia Regina Marin
- Minha sobrinha é uma pérola! – costumava dizer tia Julieta quando me apresentava a seus amigos.
Desde bem pequena, sempre que ouvia essa frase, meu peito inchava. Não sabia o que ela queria dizer exatamente, mas me seduzia o som proparoxítono e rebuscado da palavra “pérola”. O brilho nos olhos de titia e seu sorriso carinhoso confirmavam minha suspeita de que ela me considerava uma menina especial. As pessoas me olhavam com admiração e, não raro, faziam comentários do tipo:
- Que amor de criança!
- Como ela é delicada!
- Comporta-se tão bem para a idade!
- Você tem razão, Julieta, ela é uma jóia rara!
O tempo foi passando. (Crianças crescem rápido...) Logo aprendi o significado da palavra que era repetida como um mantra toda vez que uma oportunidade propícia aparecia. E não é que me apaixonei por pérolas? Já adolescente, tinha mania de recortar, das revistas de mamãe, as fotografias de mulheres elegantes que ostentavam lindos colares de pérolas. Grace Kelly e Jacqueline Kennedy foram meus modelos de elegância.
Naquela época, eu não sabia a força que as palavras têm. Hoje, no entanto, quando relembro a fase terrível de minha adolescência, o que me vem à cabeça é exatamente a imagem da pérola enclausurada dentro de uma ostra. Pobre tia Julieta! Jamais a acusaria de ter desejado isso. Aconteceu. Mas a correlação é inevitável. Sorrio quando penso na quantidade de lágrimas que uma menina-moça é capaz de derramar e no desperdício de sofrimento que a faz tão infeliz, nesse período da vida. Comigo não foi diferente. Meus hormônios faziam uma revolução interna que a cabeça não sabia entender. E, ao invés me abrir para o mundo, cada vez mais me fechava em uma concha de introspecção e timidez. Foram anos terríveis, mas já estão distantes.
No tempo certo, amadureci, me casei, tive filhos... Tornei-me, vamos dizer assim, uma pérola cultivada. Não se espantem - tia Julieta continuava a me ver da mesma maneira. Seu olhar amoroso nunca se modificou. Nem mesmo quando, em determinada fase de minha existência, em uma atitude de pura rebeldia, resolvi abandonar a família para morar com os índios, no Alto Xingu. Durante um ano experimentei a liberdade de não ter compromissos burocráticos, de conviver com gente simples, de me alimentar de forma natural. Apesar da falta de conforto, os primeiros meses transcorreram suavemente, como se meu espírito estivesse em conexão total com a natureza. Aos poucos, porém, comecei a sentir falta dos livros, dos programas culturais que sempre amei, cinema, teatro... Tentei formar um grupo de atores na taba, mas os índios não me levavam a sério. Aulas de Português então... nem pensar. E o que eu faria, no meio da selva, com os conhecimentos de inglês e francês que adquirira na escola? Desisti.
Quando voltei, recebi críticas de toda a família, com exceção de tia Julieta, que manteve a coerência com que sempre me tratara. Ao abraçá-la, emocionada, ela sussurrou:
- Querida, não me leve a mal – tenho o maior respeito pelo povo indígena – mas o que você tentou fazer foi dar “pérolas aos porcos”...
Ri gostosamente.
- Ah, minha tia... Você e suas metáforas!
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Ando um pouco desanimada. Sei que, daqui a pouco vou melhorar, porque sou mestre na arte de me erguer, de nariz em pé, dos tombos que a vida me apronta. Até lá, mentalizarei bastante luz - a luz do amor, da alegria de viver, da saúde, da energia, da confiança, do equilíbrio. Vocês vão ver: já, já me aprumo.
O texto de hoje foi uma proposta de trabalho feita pelo professor João Pedro Roriz na primeira aula da Oficina Literária do Castelinho, no ano passado: um texto sem verbos. Foi escrito no metrô, a caminho do Flamengo. Deu nisso:
SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO
Sylvia Regina Marin
Lembranças da infância: pássaros no céu, rio cheio de peixes, um bosque com árvores copadas, uma bola na frente e cem crianças atrás.
O casarão da vovó no alto da colina. Flores mil, uma horta no capricho e o pomar! Ah! o pomar! Quantos aromas inebriantes: de pêssego, manga, maçã...
Leite fresquinho, queijo da fazenda, legumes sem agrotóxicos, frango sem hormônio... E o bolo de fubá de dona Benta? Que delícia!
Sol, muito sol, passeios a cavalo, a música de Chico Viola, as serestas das noites de luar.
Saudades...
O texto de hoje foi uma proposta de trabalho feita pelo professor João Pedro Roriz na primeira aula da Oficina Literária do Castelinho, no ano passado: um texto sem verbos. Foi escrito no metrô, a caminho do Flamengo. Deu nisso:
SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO
Sylvia Regina Marin
Lembranças da infância: pássaros no céu, rio cheio de peixes, um bosque com árvores copadas, uma bola na frente e cem crianças atrás.
O casarão da vovó no alto da colina. Flores mil, uma horta no capricho e o pomar! Ah! o pomar! Quantos aromas inebriantes: de pêssego, manga, maçã...
Leite fresquinho, queijo da fazenda, legumes sem agrotóxicos, frango sem hormônio... E o bolo de fubá de dona Benta? Que delícia!
Sol, muito sol, passeios a cavalo, a música de Chico Viola, as serestas das noites de luar.
Saudades...
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